Celebrando a vida…

Aquela coisa toda de natal e ano novo, do nascimento do Menino Deus e da renovação das nossas vidas, sabem? Pois é. Esse espírito aí me contamina e eu fico alegrinha e otimista que só. Mas quando nascem meninos, mortais mesmo, aqui na Terra, na frente da gente, e quando a gente vê a mudança clara e real que eles proporcionam ao cotidiano de suas famílias, aí é que dá vontade de fazer tim-tim e celebrar a vida. Dois filhotes nasceram nesse final de ano, trazendo sorrisos a toa pra todos que os rodeiam. Eis Vinícius (Vico) e João Lucas (Jota Élle)…

– Fotos tiradas por Tia Mari, com exceção da foto de Vico, que foi tirada pelo vovô.

– Vídeo feito por Tia Mari (que tia babona, hein?)

E pra não perder o costume, um texto, cheio de poesia, que o papai de Vinícios, o “Sujeito Verbo” Giordano Bruno escreveu quando o filhote nasceu…

CRÔNICA DE UM BROTAR ARRETADO

O dia coberto por nuvens claras fazia-se cinza e abafado, deixando no ar uma expectativa de chuva, a dividir espaço com um desejo matutino de sol e brisa. O azul não apareceu e o dia permaneceu assim, fazendo suspense e guardando a noite que estaria por vir…

Quinta – feira a capoeira é de angola, das dezenove às vinte e uma horas. Noite inspirada, jogos belíssimos, e na saída do treino, o índio bem que avisou:

– Nove meses? Domingo? Ah camarada, dessa lua não passa.

Despedidas acaloradas, nem me dei conta de que lua falava o Angoleiro. Cinqüenta e seis quilômetros de asfalto guiaram o ônibus de estudantes da universidade Federal do Recife ao município do Ipojuca. Mal assentei os pés fora do buzão, bateu a saudade e o celular de bateria descarregada virou alvo de busca entre os bolsos da bermuda. Foi quando uma amiga que atendendo ao telefone do meu lado, mirou em mim um olhar derretido e a estender seu aparelho em minha direção me encheu de euforia:

– Mentira, Vinícius chegando?

Nem deu tempo de duvidar, o ultimo ônibus voltava para o Recife em cinco minutos.

Voando de sorriso aberto lembrei as palavras do Índio. Ergui o olhar, e ausente à surpresa, assistir revelar-se o segredo do dia, linda, imponente, enorme, dissipava as nuvens brilhando e irradiando alegremente o seu poder. Era noite de lua cheia! Caí no canto controlando a ansiedade até chegar ao hospital.

Sogro, sogra, mãe e cunhada na recepção, quase enfartavam de nervosos e ansiosos que estavam.

Cheguei feliz, um pouco inquieto, porém decidido a assistir tudo. Logo eu que achava que desmaiaria numa situação dessas.

Ansioso por vê-los, a notícia era que ela estava com a pressão alta e que a encaminhariam para o bloco cirúrgico. Santo hospital público, o setor estava lotado! Na dúvida de transferência para outro hospital, levaram-na para o PPP, para que descansasse até a pressão baixar e mandaram avisar que eu poderia entrar.

Entrei dançando moonwalker para o riso de alguns que se encontravam ali por perto.

Encontrei meu amor no corredor, linda e muito serena. Ainda caminhou até a recepção, a fim de tranqüilizar e despedir-se dos demais. Juntos, subimos os três para um dos momentos mais especiais de nossas vidas.

Uma cama sem lençóis, uma poltrona verde e confortável, uma bola grande (daquelas de ioga), um berçinho de maternidade e um quadro de exercícios na parede, caracterizava o quarto como um espaço para partos humanizados.

O toque tradicional, feito pela enfermeira da ala às duas da madrugada, constatou quatro centímetros de dilatação. O que a fez chutar com certo desdém, mais quatro horas de trabalho de parto.

Bobinha! Ignorava a força da lua, a coragem de Vinícius e a maturidade alegre de pais prontos a felicidade.

As contrações aumentaram colocando o meu amor em exaustão.

Pensando em como aliviar suas dores, lembrei então do Coco Raízes de Arcoverde, e de uma música que fizeram para crianças a qual cantei os nove meses para Vininho. Fiz do refrão* um mantra, e em ritmo de coco muitos cheirinhos no rosto pra aliviar a tensão.

Taci procurava ser discreta, mordia a mão, gemia baixo, mas o adiantar das horas lesava o clima e sua paciência:

– Eu quero parir! No próximo, lembra de a gente fazer cesárea! – dizia ela com muito bom humor, muita graça e muita dor.

A música e o afeto contagiaram as enfermeiras que com sorrisos contribuíam para um ambiente cada vez melhor. Aproveitamos para conversar com Vinícius, dizer que estava tudo bem, que ficasse tranqüilo e confiante, que tudo daria certo e que estávamos todos esperando por ele.

A fim de passar o tempo, resolvemos pelos exercícios, mas não sem antes da enfermeira constatar em mais um toque, os mesmos quatro centímetros de quarenta minutos atrás. Começamos pela bola onde experimentei e conferi a segurança da mesma.

Coitadinha, mal chegou a sentar e as dores chegaram mais fortes forçando-nos a deitá-la na cama.

Com lagrimas nos olhos, pediu a presença da enfermeira, que ao ouvir meu apelo, tentou generosamente explicar que era normal, que demoraria e etc.

Insisti por uma olhadinha de nada, precisava acalmá-la e era um instante só.

A enfermeira cansada, levantou solidária, e entrando no quarto com papo de “vai demorar” tomou um susto:

– Mentira! Não acredito! Já vai nascer! Gente corre, olha onde ele já está, olha pai, olha o cabelinho dele, menino que pressa… – dizia sorridente e espantada a bobinha.

Eu que já tinha engunhado uma três vezes com a secreção inicial, pensava mais três agora antes de olhar. Mas a coisa era tão estranha, tão absurda, tão linda (foi o feio mais bonito que já vi), que fiquei intrigado, paralisado, até lembrar-se da máquina. E assim que a peguei dentro da bolsa, meu amor me deu um carão:

– tu quer saber de foto uma hora dessas!?

– tudo bem tudo bem, já deixei ali. – disse da forma acanhada de quem se desculpa.

De mãos dadas, incentivamos Vinicius, e vendo-o coroar, abri o canto com um trecho de ladainha da capoeira:

– Yê! é hora é hora camarado…

Era mesmo coco de roda, e Taciana feliz tinha certeza da festa. Outras enfermeiras entraram no quarto e no clima, teve uma que até saltou batendo palminhas. O quarto era um sorriso só, estendido nas mãos da enfermeira como um tapete vermelho a espera do príncipe. Até que um “ploff” anunciou sua chegada. Era a cabeça! O corpinho deslizou em seguida e o chorinho laureou nossos corações. Pedi licença ao meu amor, e larguei o dedo na máquina fotográfica.

A bobinha também era só felicidade, colocou Vico nos braços da mãe e perguntou se eu queria cortar. Nem acreditei. A outra enfermeira logo se ofereceu: – eu bato a foto.

Foram três golpes. Impressionante, o cordão umbilical é mesmo uma mangueira. Senti cortar algo semelhante aqueles soros utilizados em bodoques para esticar a pedra.

E como foi bom! É de sentir-se poderoso imbuir-se da autoridade do direito e do dever de ser Pai, responsável pela orientação de outro ser. Criado a sua imagem e semelhança.

Vinicius nasceu em Recife, cercado de manguezais, ao som de coco e ladainha de capoeira, a sombra da lua cheia, no ultimo dia de Libra, com pancadas de chuva na madrugada pra lavar o que passou. Herdou das amizades de seus pais, muitos tios e tias, que o chamam de príncipe. Vico, Vininha, Nicinho, Vinícius… Foi sem dúvida nenhuma, uma das sementes mais arretadas que assisti brotar.

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*Vou pros braços de mamãe/Pra ela me acarinhar/Apareça valentão/Para me tirar de lá/Nos braços dela eu vou morar. (refrão da música do Coco Raízes de Arcoverde e trilha sonora do nascimento de Vinícius)

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Giordano Bruno Gonzaga

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Sobre Mariane Bigio

Poeta e Videasta. Eu faço versos como quem chora, ama, brinca, ri.... Eu faço versos como que vive.
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